domingo, dezembro 24, 2006

O Nada criativo.
A filosofia ocidental percorre há mais dois mil anos a mesma trilha rumo à sua consagração como pensamento oficial da humanidade. Para esta celebração, ela conta com um batalhão de ajudantes cujas funções são cuidar e manter sua a própria integridade e fluxo, impedindo que sofra alguma ameaça naquilo que lhe é mais frágil: sua relação íntima com a sabedoria.
Nesse tortuoso e trabalhoso caminho que ela optou em percorrer, caminha ao seu lado a sua sombra e alguns intrusos indesejáveis, a saber: o nada, o caos, a desordem e o acaso. E quanto mais a filosofia anda em direção ao crepúsculo, mais a sombra ao seu lado aumenta. Na tentativa vã de fugir de si mesmo, a filosofia inevitavelmente afirma mais ainda sua relação direta com a sabedoria e acaba por reconhecer os bufões que a acompanham, tornando seu percurso mais leve e mais alegre, sem um lugar fixo aonde se chegar e sem fardo a carregar. O reconhecimento do nada transforma o itinerário filosófico de cortejo fúnebre em passagem de bobos em um tom festivo. E o cortejo segue pulando e dançando ao som de suas gaitas e pandeiros, recolorindo e recriando tudo ao redor.

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